O nosso convívio
com a arte tem de ser menos o dos consumistas que todos somos e
temos sido, que vemos filmes, compramos livros, ouvimos música,
mas tem de ser mais o de fazedores de coisas que têm uma técnica.
A única maneira de nos aproximarmos da arte, para a podermos
compreender, é começarmos já a usar os seus
utensílios.
E se acontecer que essas peças
que fazemos numa oficina aberta subitamente revelam, de uma maneira
ou de outra, uma visão do mundo, tanto melhor, tanto mais
que melhor, mas por favor, não fiquemos paralizados diante
das obras primas e comecemos já a sujar as mãos por
um mundo melhor.
Mas é preciso acrescentar
que quem não faz arte, ou nunca a fez, de uma maneira ou
de outra, quem não a experimenta ou nunca experimentou, quem
pensa que não lhe é possível experimentá-la
dificilmente a estimará.
E estimá-la quer dizer
olhar para ela, aprender com ela e usá-la como alavanca do
mundo, ela que é sobretudo esse trabalho público e
privado de transformação dos materiais, da matéria,
que também ela muda o mundo.
(Eduarda Dionísio, in
Artes Públicas e Privadas) |